Francisco da Silva Cyríaco nasceu em 1871 nos canaviais de Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro—uma época em que a escravidão ainda existia no Brasil. No início dos anos 1900, havia chegado à capital, onde trabalhava como estivador carregando sacos de café das docas para o centro do Rio. Nas ruas violentas da belle époque carioca, conquistou reputação como um dos capoeiristas mais habilidosos do Brasil, conhecido pelo apelido de "Macaco Velho".
Em 1º de maio de 1909, Cyriaco entrou no ringue do Pavilhão Internacional de Paschoal Segreto para o que muitos consideram a primeira luta profissional de Vale Tudo na história brasileira. Seu oponente era Sada Miyako, especialista japonês em jiu-jitsu contratado pela Marinha Brasileira para ensinar combate corpo a corpo ao seu corpo de oficiais de elite. Miyako vinha desafiando todos os interessados em lutas públicas e era considerado invencível.
A prática pública da capoeira era proibida pelo Código Penal Republicano de 1890, tornando a própria presença de Cyriaco um risco legal. Mas os estudantes de medicina da Academia Nacional de Medicina no centro do Rio—encorajados pelo fervor nacionalista—o haviam "adotado" informalmente, instando-o a defender o que começavam a considerar uma arte de combate brasileira. Após insistentes pedidos, a lei foi relaxada. Cyriaco declarou: "Estou bastante confiante nas minhas habilidades. Se eu tiver uma chance, não vou decepcionar vocês".
Foi obrigado a vestir o uniforme tradicional de jiu-jitsu (gi), uma medida destinada a fazer o lutador afro-brasileiro parecer "respeitável" e "limpo" para representar as cores nacionais. Mas dentro do ringue, Cyriaco lutou à sua maneira. Usando a ginga característica da capoeira para desequilibrar Miyako, evitou uma tentativa de morote gari (queda de duas pernas). Então atacou: um chute circular devastador chamado rabo de arraia conectou com a cabeça de Miyako e o derrubou. O lutador japonês levantou-se mas foi imediatamente atingido com o mesmo chute uma segunda vez e nocauteado.
A luta durou meros segundos. A plateia explodiu. Carregaram Cyriaco nos ombros pelas ruas do centro da cidade, gritando: "A Ásia se ajoelha perante o Brasil!"
A revista O Malho publicou uma manchete em 15 de maio de 1909: "Jiu-jitsu versus Capoeira: Cyríaco, o herói". O jornal A Notícia o comparou a Santos Dumont e o chamou de campeão mundial. Apesar da capoeira ser proibida, Cyriaco foi convidado a fazer demonstrações de suas técnicas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro perante grupos de acadêmicos. Tornou-se um dos primeiros heróis esportivos brasileiros das classes populares—um símbolo da nascente república, que precisava de ídolos identificados com a emergente nação mestiça.
Para Miyako, a derrota foi devastadora. Ele continuou se apresentando por mais algumas semanas, mas sua reputação nunca se recuperou. Em junho de 1909, havia parado completamente de se apresentar.
Cyriaco continuou trabalhando como estivador. Três anos após seu triunfo, em 18 de maio de 1912, morreu aos 38 anos de uma lesão cardíaca. O Correio da Manhã anunciou: "Cyriaco, campeão da capoeiragem nacional, falleceu hontem". Morreu com a capoeira ainda proibida—permaneceria assim até 1941.
Seu legado perdurou. Assistir à vitória de Cyriaco no Pavilhão Internacional inspirou o jovem Agenor Moreira Sampaio (mais tarde conhecido como Mestre Sinhozinho) a buscar treinamento de capoeira no morro de Santo Antônio. A tradição de capoeiristas provando sua arte contra outros estilos de luta continuou através de Sinhozinho, Bimba e até o MMA moderno. Hoje, uma biblioteca comunitária em sua terra natal, Campos dos Goytacazes, leva seu nome: Biblioteca Comunitária Francisco da Silva Cyríaco.