Maria Homem foi uma das mais formidáveis capoeiristas do início do século XX na Bahia, cujos feitos lendários contra policiais tornaram-se parte da tradição oral de Salvador. Seu apelido, "Maria Homem", fala da reputação que ela conquistou em um mundo dominado por homens através de pura habilidade de luta.
O principal relato sobre Maria Homem vem de Mestre Pastinha em uma entrevista de 1969 ao Diário Popular. Ela frequentava uma "birosca" no Largo do Pelourinho, onde gostava de "tomar uns tragos". Sua reputação era tal que "até o delegado tinha mêdo" e "não havia polícia que a prendesse".
Pastinha contou um confronto específico: Um "cabo forasteiro" tentou se provar prendendo a embriagada Maria Homem. Os policiais locais, conhecendo sua reputação, recusaram obedecer à sua ordem. Sem se intimidar, o cabo tentou a prisão ele mesmo. Segundo Pastinha, "ele voou uns seis metros" e seus companheiros fugiram. O teimoso cabo voltou com reforço, apenas para sofrer o mesmo destino—testemunhas por toda a ladeira do Pelourinho viram "soldado avoando" pela encosta.
Maria Homem estava ativa durante o que Pastinha descreveu como uma era dourada para mulheres na capoeira. Entre 1902 e 1911, Salvador testemunhou "uma exibição de verdadeiras mestras de capoeira Angola, tão ágeis e hábeis quanto os homens". Essas mulheres adaptaram suas roupas restritivas para praticar: rasgavam suas saias que arrastavam no chão nos lados, conectando frente e trás com uma prezilha na cintura para criar calções improvisados—"suficiente para jogar capoeira com qualquer homem", como Pastinha observou.
Em seu livro de 1988 *Capoeira Angola*, Pastinha nomeou apenas duas mulheres capoeiristas ao homenagear os praticantes de sua era: "Júlia Fogareiro e Maria Homem" (p. 18). Em 1976, quando O Globo o entrevistou sobre a geração de "angoleiros de briga" que vieram antes dele, Maria Homem apareceu ao lado de nomes lendários: Bigode de Seda, Bugalho, Américo Ciência, Besouro, Tibiriçá, Amorzinho, Três Pedaços, Doze Homens, Inimigos Sem Tripa, Zé do U, Sete Mortes, Chico Me Dá e Júlia Fogareira. Que Maria Homem foi uma das únicas duas mulheres nesta lista fala de sua habilidade excepcional.
Pastinha lamentava que mulheres do calibre de Maria Homem não existiam mais: "É pena que não haja mais mulheres de tal estofo, pois a mulher deve também compartilhar da defesa de seu lar".
Maria Homem às vezes é confundida com outras lendárias capoeiristas, particularmente Maria Doze Homens, mas as fontes as distinguem como figuras separadas. Sua história representa a frequentemente esquecida história das mulheres na capoeira antiga, que quebraram barreiras de gênero em uma prática dominada por homens.