Pessoa
Madame Satã
João Francisco dos Santos
1900 – 12 de abril de 1976
Nasceu em Glória do Goitá, Pernambuco, Brasil
Faleceu em Rio de Janeiro, Brasil
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- Vida
- Linhagem (treino, títulos concedidos)
Momentos datados desta trajetória, do corpus.1 momento sem data está na seção Relações
- 1900Nascimento · Glória do Goitá, Pernambuco, Brasil
- 1909Começou a treinar com Sete Coroas · aos 9 · evidência
- 197612 de abril de 1976Falecimento · aos 76
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João Francisco dos Santos nasceu na miséria. Um dos dezessete filhos de Manoel Firmino dos Santos e Firmina Teresa da Conceição—ambos descendentes de africanos escravizados—ele entrou num mundo onde a sobrevivência era uma luta diária. Quando seu pai morreu em 1907, sua mãe fez uma escolha nascida do desespero: trocou seu filho de sete anos por uma égua com um negociante de cavalos chamado Laureano.
O menino tornou-se trabalhador escravizado na fazenda de Laureano. Em menos de um ano, fugiu, escapando com uma mulher chamada Dona Felicidade que o trouxe ao Rio de Janeiro. Em 1913, com treze anos, vivia nas ruas da Lapa—o coração boêmio da capital, onde o submundo se misturava com artistas, prostitutas e jogadores num carnaval permanente de transgressão.
Foi nessas ruas que conheceu Sete Coroas, o mais famoso malandro da Primeira República. Sete Coroas já era uma lenda—um baiano que dominava o submundo do Rio, imortalizado em sambas, temido pela polícia e adorado pelos pobres. Ele acolheu o jovem João como pupilo, ensinando-lhe o que Satã chamaria mais tarde de "a fina arte da malandragem": o jogo, a navalha, o papo, a rasteira e a valentia.
Quando Sete Coroas morreu em 1923, deixou João como seu sucessor na Lapa e na Saúde.
João tornou-se um capoeirista de habilidade aterrorizante. Suas batalhas contra a polícia eram lendárias. Rotineiramente lutava desarmado contra grupos de policiais armados com cassetetes. Num incidente famoso, João embriagado resistiu à prisão por um pelotão de 24 homens, deixando sete policiais gravemente feridos—dois com braços quebrados, dois com fígados lacerados. O resto do pelotão decidiu deixá-lo dormir em vez de atirar nele.
"Num piscar de olhos", lembrou uma testemunha, "suas mãos viravam pés e seus pés, em giros cambaleantes, atacavam com a violência de um bate-estacas".
Mas João era mais que um lutador. Em 1923, apresentou-se como transformista em "Loucos em Copacabana" no Teatro Casa de Caboclo, adotando o nome artístico Mulata do Balacochê. Era um homem negro assumidamente gay numa época em que qualquer uma dessas identidades podia custar sua vida. Recusou-se a se esconder.
Em 1928, sua vida mudou permanentemente. Após sua segunda apresentação, foi abordado por um vigilante que o xingou com um palavrão. Ele revidou. O confronto resultou numa sentença de 16 anos por matar um vigia noturno chamado Alberto—posteriormente anulada por legítima defesa depois que ele já havia cumprido parte da pena.
O nome "Madame Satã" veio em 1938. Liberado da prisão, entrou num concurso de fantasias de carnaval no Teatro República usando uma fantasia inspirada num morcego de sua Pernambuco natal—toda de lantejoulas douradas e flair dramático. Ganhou o primeiro lugar. Dias depois, a polícia o prendeu junto com outros homossexuais num parque do centro. Quando o escrivão exigiu seu apelido, João recusou. Mas o delegado o reconheceu como o vencedor do carnaval e, associando sua fantasia de morcego ao filme de Cecil B. DeMille "Madam Satan", registrou o nome que o seguiria para sempre.
Ao longo de sua vida, João acumulou 27 anos e oito meses de prisão em 29 processos—dez condenações por acusações incluindo homicídio, agressão, furto, vadiagem, atentado ao pudor e porte de armas. Alegou cerca de 100 assassinatos e mais de 3.000 brigas, embora esses números carreguem o peso da mitologia malandra.
Trabalhou como segurança, protegendo casas noturnas e as prostitutas e pessoas marginalizadas que as frequentavam. "Somos seres humanos", declarou quando perguntado por que protegia aqueles que a sociedade desprezava. Criou seis filhas adotivas no Rio e mais uma na Ilha Grande.
Em 1971, jornalistas do jornal alternativo O Pasquim o "redescobriram". As entrevistas que se seguiram levaram às suas memórias de 1972, "Memórias de Madame Satã", narradas a Sylvan Paezzo. O livro revelou um homem de complexidade—violento e terno, criminoso e protetor, analfabeto mas filosoficamente profundo.
Dois anos antes de sua morte, apresentou-se uma última vez, interpretando Satanás em "Lampião no Inferno" (1974). Morreu em 12 de abril de 1976, aos 75 anos, pesando apenas 46 quilos. Foi enterrado como indigente no cemitério de Vila do Abraão, Ilha Grande, usando seu chapéu panamá, com rosas vermelhas colocadas em seu caixão.
Madame Satã representa a ponte entre a velha capoeira carioca dos malandros e a arte moderna que se desenvolveu nas décadas de 1950 e 1960. Suas façanhas impressionaram toda uma geração de capoeiristas. Sua vida foi reimaginada no filme de 2002 "Madame Satã", dirigido por Karim Aïnouz com Lázaro Ramos no papel principal, que estreou em Cannes.
Ele permanece um ícone de resistência—um negro, homossexual, analfabeto filho de ex-escravos que se recusou a se curvar às normas racistas, homofóbicas e moralistas de sua sociedade.
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Aluno/a de1
Madame Satã aluno/a de Sete Coroas1909 – 1923
Relação primária professor-aluno. Sete Coroas ensinou a Madame Satã "a fina arte da malandragem": capoeira, luta de navalha, papo, rasteira e valentia. Quando Sete Coroas morreu em 1923, deixou Satã como seu sucessor na Lapa e na Saúde.
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Associado a3
Madame Satã teve ligação com Viola1947 –
Viola foi mencionado por Madame Satã em suas memórias como "o rei da capoeira na zona portuária do Rio" durante seu tempo na Penitenciária Central. Se eram contemporâneos diretos ou se Viola era conhecido por Satã por reputação não está claro.
Madame Satã teve ligação com Seu Júlio1958 –
Conheceram-se na prisão de Dois Rios; viajaram juntos ao Rio de Janeiro para testemunhar em tribunal. Seu Júlio forneceu testemunho detalhado sobre o trabalho e comportamento de Satã na prisão (tarefas domésticas, criação de porcos, alojamento privilegiado).
Madame Satã teve ligação com Quinzinho
Quinzinho (n. ~1927) era mais novo que Madame Satã (n. 1900) por cerca de 27 anos, mas ambos estavam ativos no mundo malandro do Rio no final dos anos 1940 e início dos 1950. Representam a ponte entre a velha capoeira carioca e as tradições modernas.
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Viveu em: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
período não registrado
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- declarações
- 2
- · 50%
- com fonte
- 2
- sem fonte
- 0
- contestadas
Relações por confiança
- Verificado: 2
- Provável: 2
Fontes citadas
- [1]Memórias de Madame Satã (1972) ×1citada 1 vez
- [2]journals.openedition.org: 4101 ×1citada 1 vez