Idalina Maria do Sacramento foi uma lendária capoeirista e valentona de Salvador, Bahia, cujas façanhas nas décadas de 1910 e 1920 tornaram-se lenda. Ela era uma "desordeira conhecida do conhecido Distrito da Sé" - na Baixa dos Sapateiros, uma área que guardava as histórias de capadócios, valentes e incorrigíveis.
O incidente mais documentado da vida de Idalina ocorreu em 1º de agosto de 1917, por volta das 17 horas, em frente ao Armazém do Saldanha. Quando sua companheira Firmina estava sendo insultada por Maria Joanna, Idalina não hesitou: "não perdendo a oportunidade de defender a honra da camarada: entrou em luta com a desafeta e a feriu com sua faca".
Quando o guarda civil nº 233 chegou para apartar a briga, Idalina não se entregou. Em vez disso, passou a lutar também com ele. Os guardas nº 191, 165 e 210 chegaram como reforço, junto com vários praças de polícia. O que aconteceu a seguir tornou-se lendário: "Todos se engalfinharam com a valente, que lutou com todos de uma vez". Ela foi finalmente levada à Casa de Correções e respondeu por lesões corporais.
Este não foi um incidente isolado. Segundo o Jornal de Notícias, Idalina teve múltiplos conflitos documentados com as autoridades e outras mulheres. Em registros de 1917 e 24 de abril de 1920, ela aparece junto com Zeferina, outra capoeirista, com quem tinha rixa por ponto de prostituição. O jornal relatou: "encontraram-se as desafetas e foram ao duelo a murro e pontapé". Existe "uma vasta lista de registros policiais em que ela foi enquadrada sob acusação de capoeiragem".
O legado de Idalina vai além dos registros históricos. Mestre Bimba, o criador da Capoeira Regional, a homenageou dando seu nome a um dos seus sete toques fundamentais de berimbau: "Idalina". Este toque - um ritmo lento a moderado com batida forte - é tradicionalmente usado para um jogo mais livre e expressivo. Algumas fontes indicam que também era associado ao jogo de navalha. A existência deste toque sugere que a reputação de Idalina era amplamente conhecida na comunidade capoeirística de sua época.
Várias músicas de capoeira também fazem referência a Idalina, incluindo "É de manhã, Idalina tá me chamando", sugerindo que ela se tornou parte da tradição oral que preserva a história da capoeira. As músicas a retratam como alguém que "chama a gente e sai andando" - uma mulher que vivia a vida em seus próprios termos.
Idalina foi uma das muitas "mulheres incorrigíveis" documentadas na tese de doutorado pioneira de Paula Juliana Foltran na Universidade de Brasília (2019). Esta pesquisa, realizada no Arquivo Público do Estado da Bahia, identificou centenas de mulheres envolvidas em lutas de rua e capoeiragem durante o período 1900-1920, desmontando definitivamente o mito de que a capoeira era um domínio exclusivamente masculino.
Como escreve Foltran: "Idalina é capoeira, não fica parada à espera de nada". Esta frase captura a essência de uma mulher que, em uma era em que a capoeira era criminalizada e as mulheres enfrentavam perseguição ainda maior por praticá-la, lutou contra qualquer um que a desafiasse - fossem rivais, guardas civis ou a própria ordem social.